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Futsal gaúcho é referência mundial, mesmo sem time em Porto Alegre

24/05/2019

Apesar de não ter representantes na Capital, modalidade movimenta milhares de atletas no Interior e coleciona títulos.

O último capítulo da série "Cadê o esporte no RS?" é dedicado à modalidade em que o Estado tem maior destaque. O futsal gaúcho é referência mundial. Desde sempre. Uma das versões do início do "futebol do salão" diz que os primeiros chutes em quadras fechadas foram dados no Uruguai nos anos 1930. Dali a cruzar a fronteira foi um passo.

O esporte cresceu e se desenvolveu por aqui, entrou na rotina dos gaúchos e, praticamente todos os finais de semana, lota ginásios em todas as regiões do Rio Grande do Sul. Coleciona títulos nacionais, continentais e mundiais. Tem um fortíssimo campeonato regional. Faz pulsar o Interior.

Mas e na Capital? Não há futsal em Porto Alegre desde a metade da década passada. Atualmente, nem mesmo um campeonato municipal oficial é organizado, e clubes tradicionais, como Inter e Grêmio, que chegaram a ter times fortíssimos e campeões, não dão mais espaço para a modalidade.


ACBF é a maior referência de futsal no BrasilPorthus Junior / Agencia RBS

O futsal é o Rio Grande do Sul que dá certo nos esportes, além do futebol. Proporcionalmente, inclusive, é correto afirmar que a modalidade é mais forte do que o próprio futebol, tamanhos sucesso e tempo no topo. São oito títulos de Taça Brasil, nove da Liga Nacional, oito de Libertadores, seis do Mundial de Clubes e oito brasileiros de seleções estaduais.

Internamente, o cenário também é positivo, ainda que haja uma divisão. A Federação Gaúcha de Futsal (FGFS) viu surgir uma concorrência quando diversos clubes se uniram e criaram a Liga Gaúcha. Assim, há duas correntes. De um lado, a FGFS tem 18 times participando da Série Ouro. A Prata e a Bronze ainda não começaram. Entre as mulheres, são quatro equipes. Do outro, a Liga Gaúcha tem 43 equipes divididas em três séries, mais oito times femininos. Isso na categoria livre, adulta. Somando com a base, a Liga Gaúcha tem mais de 100 representantes de 85 cidades diferentes, cobrindo todas as regiões do Estado. São mais de 3,5 mil atletas.

"” Não tenho medo de afirmar: o Rio Grande do Sul é o maior centro de futsal do país. É referência, atrai nomes do Brasil inteiro. Exporta talentos, e não só na quadra, técnicos e preparadores também. Forma craques. E disputa sempre em altíssimo nível "” elogia o presidente da Liga Gaúcha, Nelson Bavier, ele também um personagem dessa história já que, carioca, veio para o Estado jogar em Casca e nunca mais saiu.

A maior referência gaúcha é a ACBF. A equipe de Carlos Barbosa é uma grife internacional do futsal, maior campeã de Liga Nacional (cinco títulos), seis vezes vencedora de Libertadores (ao lado de Jaraguá) e dona de três títulos mundiais. E essas são as conquistas, não estão computadas as vezes em que o time esteve perto de erguer o troféu, mas acabou perdendo nas fases finais. Há mais de duas décadas, o clube se mantém na elite da modalidade.

Isso se dá, principalmente, graças a dois fatores: o apoio da comunidade e o patrocínio forte. O ginásio fica frequentemente lotado, a torcida incentiva os jogadores, compra produtos e colore de laranja a cidade da Serra. A Tramontina mantém sua marca ligada ao clube desde sempre, aumentando os investimentos na década de 1990. Apaixonado por futsal, o empresário Clóvis Tramontina apostou na ACBF para encerrar a rivalidade entre Real e River, de um primo seu (e que sempre vencia as finais). Depois da união, a nova associação ficou 20 anos sem ganhar o Estadual. Mas a partir do momento em que injetou mais dinheiro e profissionalizou o departamento, em 1996, empilhou títulos. E ainda há outro motivo de orgulho.

"” Hoje, temos mais de 400 crianças nas escolinhas, além dos atletas das categorias de base, que são preparados para ingressar no time principal. O grupo de 2019, por exemplo, tem 18 atletas, sendo que sete foram formados na nossa categoria de base "” frisa Tramontina.


Daniel Carvalho (C) é o craque do Pelotas no Estadual de futsal. Camila Mattos Fotografia / Divulgação

Nas divisões inferiores, também há uma retomada. Em Pelotas, por exemplo, o início da terceira divisão da Liga Gaúcha teve um Bra-Pel improvisado. Porque o "Bra" não é de Grêmio Esportivo Brasil, mas de Associação Brasil de Futsal, que tem logo e cores inspirados no Xavante e foi abraçado pela torcida. O "Pel", sim, é de Esporte Clube Pelotas. Eles fizeram um "clássico" que lotou o ginásio do DC Esportes, na cidade da Zona Sul, e terminou com vitória do Lobão por 11 a 7. Um dos destaques foi Daniel Carvalho, ex-craque do Inter, do CSKA e da Seleção, que começou sua vida esportiva nas quadras.

Mas e em Porto Alegre? 

Fora do cenário principal há quase 15 anos, a Capital já foi tradicional na modalidade, tanto que é a cidade recordista de títulos estaduais, com 16 conquistas (oito com Inter, três com Wallig, dois com Cruzeiro, dois com Caixa Econômica Estadual e um com Gondoleiros). Mas desde que o projeto de futsal de Inter e Ulbra terminou, não houve mais uma força do município. A universidade de Canoas ainda mandou algumas partidas no Tesourinha, mas foram só em decisões esporádicas.

Houve grandes momentos, como o Gigantinho pulsando para a final da Liga Nacional de 1996, vencida pelo Inter sobre o Vasco, de Caxias do Sul, e do título mundial colorado sobre o Barcelona no ano seguinte. Antes, quando o Grêmio tinha uma equipe de futsal, os clássicos também levavam multidões aos ginásios e movimentavam as torcidas.


Inter lotou o Gigantinho na disputa da final da Liga Nacional de 1996. Antônio Pacheco / Agencia RBS

"” Naquele nosso projeto, que começou como uma forma de aproveitar o Gigantinho, a parceria com a Ulbra foi fundamental. Eles investiram e decidiram montar o melhor time do país. Então, contratamos a seleção brasileira. A equipe deu tão certo que chegou a ser chamada de Inter/Ulbra, uma raridade em termos de marketing "” recorda Larry Pinto de Faria Júnior, então diretor de futsal colorado.

Segundo ele, a repercussão interna foi excelente. O futsal virou case de sucesso em uma época de vacas magras no futebol. Externamente, os torcedores usaram os títulos da modalidade como uma motivação e uma injeção de ânimo em uma autoestima abalada. Para a Ulbra também foi positivo, já que, disputando o Estadual, espalhou sua marca em rincões que não era conhecida.

"” Hoje, me parece mais fácil. Os clubes já foram campeões, estão organizados, têm uma condição financeira melhor. Investir nesses esportes pode dar um retorno interessante "” reforça Larry.

Atualmente, a maior grife da Liga Nacional é o Corinthians. O time disputa também a Libertadores da modalidade. E, de acordo com o gerente de futsal Edson Sesma, a aposta vale a pena.

"” No aspecto financeiro, todas as propriedades da camisa foram comercializadas, e alguns destes parceiros estão há muitos anos com o futsal, legitimando a exposição efetiva das marcas e o bom negócio. O futsal fortalece a marca Corinthians, é exposto em vários canais e atrai um grande público nos jogos no Parque São Jorge "” aponta Sesma, que recorda, ainda: "” O futsal está conectado ao futebol, principal esporte do clube, como uma fonte de captação de jovens e talentosos atletas, e ter uma equipe de futsal forte serve de estímulo e referência para o clube atrair os melhores jogadores da base, que em algum momento podem migrar para o futebol ou seguir carreira nas quadras.

O Flamengo, que já tem time de basquete, ginástica artística, judô, natação, remo e vôlei, deve entrar também no futsal até a próxima temporada. Ainda não há informação sobre investimento, mas especialistas afirmam que, com um orçamento de R$ 1,5 milhão anual (mais R$ 800 mil para comprar uma franquia na Liga Nacional), é possível montar uma equipe para ser campeã brasileira.


Corinthians aposta na exposição da marca. Rodrigo Coca / Divulgação

Apesar do preço acessível para clubes grandes e do sucesso registrado no Interior, não há previsão para Grêmio e Inter ingressarem no esporte. Nenhum deles tem nem mesmo departamentos organizados para futsal ou outros esportes.

A esperança para porto-alegrenses, então, está em um projeto da Liga Gaúcha, que pretende organizar um campeonato municipal escolar e, a partir dele, montar um time que represente a cidade. Primeiro, como base. Depois, se possível, no profissional.

A Capital não enxergou mais o resto do Rio Grande do Sul que dá certo.

Créditos: Cadê o esporte no RS? / Gaúcha ZH / ClicRBS

 

 

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Criada em 2017 pelos principais clubes de Futsal do estado, a Liga Gaúcha surgiu com o objetivo de gerenciar a Elite do Futsal Gaúcho.